sexta-feira, 21 de maio de 2021

NA VOLTA DA MARÉ - Joana Amendoeira

 

 


Talvez nunca tenha havido outro período na música portuguesa tanto a popular quanto a tradicional, com tantos músicos e cantores talentosos reunidos simultaneamente, a ponto da cena musical lusitana assemelhar-se ao firmamento, tamanha a quantidade de estrelas que brilham por lá.

Dentre tantas, porém, uma delas se destaca por seu imenso brilho próprio. Joana Amendoeira tem todas as qualidades das grandes cantoras populares: domínio impecável da técnica vocal, uma belíssima voz que é, ao mesmo tempo, doce e poderosa, e uma interpretação sincera, cheia de alma e emoção, que fala diretamente ao coração de seus ouvintes.

E podemos conferir todo esse talento em seu mais recente álbum, o décimo de sua carreira, Na Volta da Maré.

Ao contrário de seus discos anteriores, Na Volta da Maré não é um disco de fado, embora haja muito do fado nele. Como a própria Joana define, este é um “disco atlântico”, que combina tradições musicais portuguesas, brasileiras e africanas, com um resultado belíssimo, feito em parceria com os compositores Tiago Torres da Silva (letras) e o brasileiro Fred Martins (músicas).

A variedade de estilos do álbum é enriquecedora, e exalta toda a versatilidade de sua intérprete.

Na Volta da Maré, que abre e batiza o álbum remete à fusão de estilos popularizada pela banda Madredeus anos atrás, mesclando elementos do fado, da música erudita e da world music. Mas é uma canção essencialmente portuguesa em seus temas, que falam de amor, saudade e do mar, sempre presentes na alma portuguesa.

É possível deleitar-se com esta mesma fusão de estilos em outras faixas, como a deliciosa e alegre Entre o Calor e o Frio (que conta com uma tradicional viola caipira brasileira), na delicada e comovente Todas as Ondas do Mar e, principalmente, na divertida Canção Imoral, na qual Joana divide os vocais com Fred Martins e Mart’nália.

A Dor e o Prazer é um bolero que fala de como, às vezes, amor e sofrimento caminham lado a lado.

Joana e sua banda também mostram toda sua versatilidade e virtuosismo ao brindar os ouvintes deste lado do Atlântico com ritmos tradicionais brasileiros.

Pequenos Nadas é uma deliciosa marchinha (ritmo brasileiro que, por sua vez, teve origem nas marchas populares portuguesas) cantada em dueto com Fred Martins. O Melhor de Mim é “quase” um choro, no qual se destaca o clarinete de Nilson Dourado. Além disso, as canções Viver a Mil, Só Falta Esquecer, e O Que Tenho Para Ti evocam o melhor da MPB tradicional.

Mas é claro que o fado, berço musical de Joana Amendoeira, não poderia ficar de fora, fazendo-se presente em duas faixas, O Medo — um fado tradicional cuja interpretação nos remete à rainha Amália Rodrigues — e Qualquer Lugar.

O álbum ainda conta com a participação de Pedro Amendoeira (guitarra portuguesa), João Filipe (violão clássico), Carlos Menezes (contrabaixo), Ruca Rebordão (percussão), Fred Martins (vocais, violão, cavaquinho e cuatro) e Nilson Dourado (guitarra, viola caipira, clarinete e escaleta).

O disco, lançado no dia 14 de maio, está disponível nas lojas e em todas as plataformas de streaming de música.

Além disso, Joana e sua banda fizeram um maravilhoso concerto de lançamento do álbum, disponível em seu canal oficial no YouTube:



 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Resenha: Hell Spawn, de Declan Finn


O detetive da Divisão de Homicídios da NYPD, Thomas Nolan, não é um policial comum. Em uma profissão famosa por transformar idealistas em cínicos e fomentar crises pessoais, ele consegue manter sua fé em Deus e na humanidade. Ele é um homem decente e honesto, que acredita na lei e na ordem. E além de ser católico romano praticante - e justamente por isso - ele consegue ver muitos dos criminosos com os quais lida diariamente em seu distrito no Queens como pessoas essencialmente boas que se desencaminharam em decorrência de decisões ruins tomadas ao longo de suas vidas. Ao contrário de muitos outros protagonistas de dramas policiais, que tendem a ser violentos ou desajustados, Thomas Nolan é um santo. 

E, neste caso, literalmente: durante o que parecia ser mais um dia de trabalho, Thomas passa a desenvolver certos dons ou carismas comuns aos santos, como bi-locação e capacidade de sentir presenças sobrenaturais através de seu olfato - habilidades que lhe serão muitos úteis na investigação de uma série de assassinatos incomuns e ritualísticos que vêm ocorrendo no Queens. 

Com uma fantástica mistura de drama policial, terror e fantasia urbana, o autor Declan Finn apresenta o primeiro livro da série Saint Tommy, NYPD, publicado em novembro de 2018 e que já conta com sete volumes (o oitavo será lançado no final de janeiro de 2021).

O livro é narrado em primeira pessoa, com um estilo fluido e agradável, diálogos bem construídos e personagens com personalidades definidas e distintas, como o parceiro de Nolan, o detetive Alex Packard, que é dotado de um senso de humor sarcástico e, por vezes, bastante debochado. 

O autor também consegue transmitir de maneira bastante palpável a sensação do mal que espreita sobre Nolan e sua vizinhança, e suas descrições de pessoas e locais são sempre vívidas e detalhadas. 

Por exemplo, a cidade de Nova York, mais precisamente o distrito do Queens, onde o protagonista (e também o autor) vive e trabalha, é mostrada de maneira fiel e precisa, não apenas em seu aspecto urbano e arquitetônico, mas em suas características comunitárias bastante peculiares e completamente diferentes de Manhattan, por exemplo. As cenas de crime são descritas com detalhes suficientes para mostrar ao leitor todo o horror de um homicídio, mas sem jamais exagerar na sanguinolência e nunca de maneira mórbida. 

As cenas de luta e ação - e há várias delas em todo o livro, que vão desde brigas até tiroteios cinematográficos - são bastante viscerais, até pelo fato do detetive Nolan ser praticante de Krav Magá, um estilo de luta voltado a colocar seu oponente fora de combate da maneira mais rápida possível - porém reconheço que as descrições de lutas golpe a golpe podem ser um tanto quanto cansativas para alguns leitores.  

Como tanto o protagonista quanto o autor são católicos, essa visão de mundo cristã se faz presente em todo o livro, mas sempre de maneira natural ao personagem. Em outras palavras, não há "pregação" na história, e acredito que leitores de outras fés ou crenças não terão problema algum em apreciá-lo. 

Em suma, Hell Spawn é recomendo para quem procura uma excelente mistura de fantasia urbana, horror e drama policial, com um protagonista simpático, decente e honrado.


 


 

 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

A Genesis in my Bed - the autobiography


 

Steve Hackett talvez seja um dos guitarristas mais subestimados da história do rock. Apesar de ser um músico e compositor extremamente talentoso, que navega facilmente entre estilos tão diferentes quanto rock progressivo, pop-rock, neo-clássico e blues, ele não tem o mesmo espaço na mídia que outros mestres da guitarra, como Joe Satriani ou David Gilmour, e raramente é reconhecido como o gênio que é, exceto pelos seus fãs - por exemplo, pouca gente sabe que ele inventou o tapping e influenciou músicos como Brian May e Eddie van Halen. 

Em parte, isso se deve à sua personalidade. Além de tímido e avesso à fama, ele é um perfeito cavaleiro britânico, sempre sereno, calmo e educado, por vezes melancólico. E sua autobiografia retrata esse lado de sua personalidade com perfeição. 

Por seu escrito pelo próprio Hackett, o livro não tem a abordagem jornalística tão comum em biografias e autobiografias escritas à quatro mãos. Pelo contrário, ao ler o livro o leitor tem a nítida impressão de estar lendo um diário pessoal ou de estar em um bate-papo íntimo e pessoal. 

Steve começa contando sua difícil infância na Londres pós-guerra - embora sua família não fosse pobre, eles também não tinham luxos - e a experiência traumática em um internato londrino. Foi durante a infância que surgiu sua paixão pela música, primeiramente com a gaita e depois com o violão. 

Após contar suas experiências na adolescência, que incluem corações partidos, ele narra meticulosamente seu teste para se tornar guitarrista do Genesis, e seus sete anos com a banda. É interessante acompanhar nestes capítulos não apenas a maneira como Steve narra seu desenvolvimento como músico e compositor, mas sua visão, sempre muito educada, da dinâmica da banda. E mesmo quando faz alguma crítica a um de seus companheiros, elas sempre são muito educadas e nunca levadas para o lado pessoal.

Ele dedica um capítulo inteiro à seu primeiro disco solo, Voyage of the Acolyte, lançado em 1975 e gravado durante o breve hiato da banda após a saída de Peter Gabriel, e outro à sua saída do Genesis em 1977 após a turnê Seconds Out. 

Os capítulos seguintes são dedicados à gestação e solidificação de sua carreira como artista solo, durante o final da década de 1970 até o início de 2020, e traz abordagens detalhadas de seus discos, suas colaborações com diversos músicos, como seu irmão mais novo John Hackett, com o também guitarrista Steve Howe (Yes e Asia) no projeto GTR (1986), e com o baixista do Yes, Chris Squire, no projeto Squackett, do qual nasceu o belíssimo álbum A Life Within a Day (2012).

Ainda que o foco do livro seja sua música, durante toda a narrativa Steve intercala comentários e histórias de sua vida pessoal, incluindo seus casamentos, e algumas anedotas hilárias, como sua primeira visita ao Brasil no final dos anos 70, que incluiu uma viagem em um táxi caindo aos pedaços do Rio de Janeiro a Petrópolis pela serra, e uma visita a um terreiro de macumba! 

Em resumo, A Genesis in my Bed é um livro bastante interessante para fãs do Genesis e de Steve interessados em conhecer um pouco mais sobre o processo criativo e a vida pessoal de um dos guitarristas mais talentosos da música contemporânea.


quarta-feira, 7 de outubro de 2020

The Jake Cutter Conspiracy (Tri-System Authority - Livro 1)


 

The Jake Cutter Conspiracy, escrita por Richard Kyle Hannah, é a primeira parte da trilogia Tri-System, da qual também fazem parte o The Reign of Terra e Tales from the Busty Ostrich. A trama, porém, é contada nos dois primeiros livros, enquanto o terceiro traz histórias curtas envolvendo vários personagens da saga e que ocorrem, cronologicamente, antes, durante ou depois da história principal.

A trama é focada no Capitão Jake Cutter, um homem comum que leva uma vida bastante corriqueira como capitão de uma nave mercante, até que um dia seu mundo vira de pernas para o ar. Jake é incriminado por um delito que não cometeu, sendo preso e enviado ao planeta-prisão Cla'nix para cumprir sua pena. Na prisão, Jake recebe ajuda inesperada de dois outros prisioneiros - a humana Angel e o alienígena Grag - em sua busca por descobrir quem o incriminou, e o porquê. 

Jake é um personagem bastante crível e simpático, e o autor consegue transmitir, em vários momentos, toda a dor, frustração, desespero e desejo de vingança do personagem. Diversas cenas do livro me surpreenderam, e pelo menos uma delas - um encontro entre Jake e sua esposa Pamela - me deixaram com os olhos marejados.

Os personagens secundários também são muito bem desenvolvidos, como o simpático e sagaz Grag, um alienígena da raça bluclic (uma espécie humanoide de pele azul) e a misteriosa Angel, que atua como consciência e compasso moral de Jake em diversos momentos, e evita que ele se deixe dominar pelo sentimento de vingança a qualquer preço. O Tenente Mark Dawson, que vai ganhando importância ao longo da trama, também surge como uma figura bastante interessante. 

Merecem destaque também os diálogos, que sempre soam naturais e críveis, as descrições de cidades e paisagens, com precisão de detalhes suficiente para ajudar o leitor a visualizar os locais, e a caracterização de alguns dos personagens secundários - como dois divertidíssimos mercadores veteranos que contam a história do explorador espacial Robert J. Panz. 

Aliás, essa caracterização crível e verossímil é uma das maiores qualidades do autor. Seria fácil fazer de Jake, Angel ou Dawson protagonistas infalíveis ou típicos heróis de ação que saem de um tiroteio com apenas ferimentos superficiais, mas não é isso que acontecem. Eles cometem alguns erros e sofrem as consequências de suas ações.

Diversas raças e espécies alienígenas são descritas no livro, embora poucas sejam descritas ou exploradas a fundo, servindo mais dar cor à história e adicionar um elemento de space-opera - embora o livro não possa ser caracterizado, de modo geral, como parte desse subgênero.

As sequências de ação são muito bem escritas e bastante cinematográficas. Aliás, o livro todo possui essa característica, e em muitos momentos me lembrou algumas das melhores séries de ficção-científica dos anos 90.

A trama faz uso de várias convenções da ficção-científica, mas em momento algum a história cai em clichês ou se torna previsível. Muito pelo contrário, o livro possui momentos verdadeiramente surpreendentes. 

Por exemplo, embora parte do livro se passe em uma prisão, o autor consegue deixar esse cenário, já utilizado à exaustão em diversas mídias, bastante interessante. E ainda que o protagonista busque sua vingança pessoal, e ocasionalmente realize alguns atos questionáveis, o livro nunca se torna sombrio ou deprimente. 

Em suma, The Jake Cutter Conspiracy é um livro de ficção-científica com grandes doses de ação, reviravoltas inesperadas e protagonistas muito carismáticos, escrito em uma linguagem agradável e bastante cinematográfica. 

Avaliação: 4.0 (de 5.0)




 

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Soulfinder: Demon's Match


 

Quem leu minha postagem anterior sobre histórias em quadrinhos já sabe que parei de acompanhar os títulos das grandes editoras (Marvel e DC) há quase dez anos, uma vez que o mercado está praticamente dominado por ativistas travestidos de roteiristas que estão mais interessados em dar sermão sociopolítico do que contar boas histórias.

Para quem ainda aprecia boas HQ de autores que, acima de tudo, estão focados apenas em entreter o público com boas histórias, o mercado independente tem sido uma excelente opção. 

Foi assim que conheci Soulfinder: Demon's Match. Escrita por Douglas Ernst, belamente ilustrada por Timothy Lim (capista de títulos como G.I. Joe vs Street Fighter, Back to the Future), colorizada por Brett Smith e com capa do veteraníssimo Dave Dorman, a graphic novel de 56 páginas foi publicada de forma independente, por financiamento coletivo, através da plataforma Indiegogo em junho de 2019.

A história é centrada no padre católico e veterano do exército Patrick Retter. Pároco de uma pequena comunidade na pacata cidade de Steepleton, Maryland, ele ocasionalmente ajuda seu amigo, o detetive Gregory Chua, em casos que apresentam elementos sobrenaturais. 

Porém, quando um demônio ancião chamado Blackfire decide possuir um dos moradores de Steepleton, Pe. Patrick recebe a ajuda do Pe. Reginald Crane, veterano da guerra do Vietnã e membro da Ordem dos Soulfinders, um grupo de padres exorcistas dedicados a combater demônios como Blackfire. 

Não há como falar mais da trama sem dar spoilers - e essa não é minha intenção - mas tenha certeza que a história é fantástica.

Todos os elementos da trama se desenvolvem muito bem e o roteiro flui com bastante naturalidade. Há espaço para dramas pessoais, investigação policial, terror e discussões filosóficas ("porque coisas ruins acontecem com pessoas boas?"), mas tudo isso se encaixa de maneira harmoniosa; em nenhum momento tive a impressão que alguma parte da narrativa foi subdesenvolvida, forçada ou mal-aproveitada. 

Os diálogos também soam naturais, sem exposição desnecessária ou monólogos explicativos cansativos, algo que acho um vício terrível de vários roteiristas contemporâneos.

Os personagens também são muito bem desenvolvidos, principalmente o protagonista.  Pe. Patrick, por exemplo, é uma figura bastante cativante e inspiradora. Ele não é perfeito - muito pelo contrário, tem seus defeitos e traumas pessoais -  mas é alguém que possui forte senso de certo e errado, e que sabe carregar sua cruz com estoicismo e dignidade. 

Uma coisa interessante é que ainda que a HQ possua fortes elementos religiosos cristãos (e católicos, em particular), em momento algum o roteiro torna-se moralista ou maçante, e nem tem a intenção de tentar "converter" o leitor. 

Aliás, uma das maiores virtudes de Douglas Ernst é justamente oferecer uma história clássica da luta do bem contra o mal sem cair em armadilhas óbvias - algo que certamente poderia acontecer com alguém menos talentoso. 

 

A arte de Timothy Lim é outro destaque da HQ. O traço é bastante detalhado e limpo, com enquadramentos cinematográficos e excelente domínio do contraste de luz e sombras, que é muito bem empregado para ressaltar os temas da história.

Em resumo, Soulfinder é uma incrível história de fé e redenção muito bem escrita e desenhada, e cujo principal objetivo é entregar uma história envolvente, cativante e que entretém seus leitores do começo ao fim.

O segundo volume está previsto para o primeiro semestre de 2021, e quem deseja adquirir sua cópia de Demon's Match pode fazê-lo pelo site Iconic Comics.

 


 

 

terça-feira, 1 de setembro de 2020

O QUE É SYNTH-WAVE?

 


Se você, como eu, não dá bola para a música dita “mainstream”, talvez já tenha ouvido falar sobre um gênero musical chamado “synth-wave”.

Ou talvez você tenha ouvido, e alguém lhe disse que é “música retrô no estilo anos 80”. O que não é, nem de longe, verdadeiro.

Bem, se você nunca ouviu, vamos dar um jeito nisso agora: coloque seus óculos de “aviador”, entre no seu DeLorean a 141 km/h e venha conhecer esse fantástico gênero musical.


O QUE É
Primeiramente vamos esclarecer o que não é synth-wave: Ele não é a mesma coisa que synth-pop, o famoso estilo musical que consagrou artistas como Kraftwerk, Depeche Mode, Soft Cell e Pet Shop Boys, embora tenha influências dele. E certamente não é um termo genérico utilizado para qualquer tipo de música que utilize sintetizadores.

Mas então, o que é esse tal “synth-wave”? É um gênero musical único, claramente inspirado por diversos gêneros musicais (principalmente electro, disco music, synth-pop e dance music europeia, além de trilhas sonoras de filmes e videogames), mas com várias características próprias e uma história bastante distinta.

É também conhecido ocasionalmente como “outrun” (seu nome original, hoje utilizado para referir-se a um de seus subgêneros) ou ainda “retrowave”, ainda que esse último termo seja mais utilizado em relação à “cena synth-wave” como um todo, e não apenas para a música.

Embora superficialmente possa parecer um “revival da música pop dos anos 80”, ele vai muito além de uma mera recriação musical.

Sim, o estilo é retro em sua estética e há muita reverência, paixão e até um toque de nostalgia por um dos períodos mais criativos da música pop mundial. Mas, acima de tudo, ainda que suas influências sonoras sejam perceptíveis, o synth-wave soube forjar e encontrar a sua própria identidade musical a partir de estilos musicais do passado.

Musicalmente, uma de suas características mais notáveis é a prevalência de instrumentos musicais eletrônicos, como máquinas de ritmos (“drum machines”), baterias eletrônicas, sequenciadores e, obviamente, sintetizadores – o gênero não foi batizado de “synth-wave” à toa – particularmente os clássicos, como os famosos Roland DX7, Korg OS-6, Korg DW, E-Mu Emulator II, Oberheim OB-X, Minimoog e Eminent 310, ou instrumentos e softwares modernos que emulam seu som.

Sintetizador / sampler E-Mu Emulator II

Porém, não é um estilo de música puramente “eletrônica”, e outros instrumentos, especialmente guitarras, contrabaixos, saxofones, pianos, baterias e percussão também são usados com frequência.

Talvez o elemento mais notável de nostalgia oitentista do synth-wave não esteja em sua música, mas sim na estética dos álbuns e videoclipes, que usam e abusam de elementos gráficos da época: neon, cromo, lasers, gráficos 3D e cores fortes ou cítricas, principalmente em tons de amarelo, laranja, azul, roxo e magenta, e títulos e logotipos desenhados em estilos de design comuns nos anos 80.

É comum que a arte das capas dos discos faça referência a imagens idealizadas da década de 80 de cidades litorâneas americanas, como Los Angeles ou Miami, e utilize em sua composição elementos como a luz do sol difusa, vidro espelhado, praias, palmeiras e coqueiros, carrões favoritos da época (Ferrari F40, Ferrari Testarossa, Corvette 305, Mustang SVO, Pontiac Trans Am e, é claro, o DMC DeLorean) e sensuais silhuetas femininas.

E os elementos mais kitsch também não poderiam faltar nas ombreiras, jaquetas, grandes pulseiras e brincos, maquiagem forte, permanentes e topetes.

Capas dos álbums "Atlas", de FM-84 e "Electric Heart", de Roxi Drive

Alguns dos subgêneros, porém, já buscam uma estética completamente diferente. Os discos de futuresynth normalmente trazem arte de ficção-científica retro-futurista ou cyberpunk, e é fácil notar também a influência de mangás e animes como Bubblegun Crisis, Akira e Ghost in the Shell em suas artes. 

Já no dark synth vemos cores mais sóbrias, como preto, roxo e verde-escuro, e elementos que parecem saídos dos pôsteres de filmes de terror ou ficção-científica sombria dos anos 70 e 80: tempestades, névoas, vampiros, mortos-vivos, súcubos sensuais, androides assassinos, ciborgues e paisagens urbanas distópicas.


AS ORIGENS
O gênero surgiu na França, em meados da década de 2000, como um derivado musical da French House. Capitaneado por artistas como Kavinsky, College (um projeto musical do músico David Grellier) e a dupla Justice (formada por Gaspard Augé e Xavier de Rosnay), o recém-nascido synth-wave era fortemente influenciado e inspirado por músicos e bandas como Jean-Michel Jarre, Vangelis, Tangerine Dream, Wendy Carlos, Depeche Mode, Jan Hammer, Harold Faltermayer, John Carpenter e Georgio Moroder, entre outros.

Por muitos anos, o synth-wave permaneceu como uma música de nicho e pouco conhecida. Isso viria a mudar com o lançamento de dois filmes no início da década seguinte que traziam trilhas sonoras compostas no novo estilo: Tron: Legacy (2010) e, principalmente, Drive (2011).

A trilha sonora de Drive, cuja música incidental fora composta por Cliff Martinez, alcançou um imenso sucesso de público e crítica, trazendo também três canções que ficaram igualmente famosas e abriram caminho para popularizar o gênero: “Nightcall”, de Kavinsky; “A Real Hero”, colaboração entre o College de David Grellier e a dupla quebequense Electric Youth, e “Under Your Spell” da banda canadense “Desire”.

Não é exagero algum dizer que essa trilha sonora foi diretamente responsável por inspirar uma série de novos artistas a partir de 2010, que não apenas seguiram o caminho dos pioneiros franceses como passaram a desenvolver uma série de sub-gêneros que hoje fazem parte do que chamamos de synth-wave. Lazerhawk, Carpenter Brut, Mitch Murder, Powerglove, Futurecop!, Miami Nights 1984, The Midnight, Gunship, FM-84 e Duett são apenas alguns exemplos dentre muitos outros.

Essa “segunda onda” foi marcada, também, pelo surgimento em todo o mundo de novas gravadoras independentes especializadas no estilo (NRW Records, Popwave, Aphasia, Time Slave, Lazerdiscs, Future City, Neon Retro Records, Aztec Records, Fixt Neon, etc.).


ONDE OUVIR
Há vários lugares onde você pode ouvir synth-wave.

No Bandcamp você pode não apenas ouvir a música em streaming, mas também comprar cópias digitais de altíssima qualidade dos discos, bem como cópias físicas em CD, vinil e até mesmo fita cassete.

As plataformas de streaming, como Spotify, Tidal, Apple Music e Deezer também são uma ótima opção, com centenas de artistas e discos disponíveis.

No YouTube há vários canais que disponibilizam músicas e álbuns completos, como New Retrowave (um dos primeiros e com um catálogo gigantesco), Synth Heaven e Luigi Donatello.


SUBGÊNEROS
Longe de ser um gênero musical homogêneo, o synth-wave já possui diversos subgêneros, cada um com seu próprio estilo particular. Abaixo eu falo sobre alguns deles e também indico alguns dos principais artistas e álbuns (se você assina o Spotify, basta clicar sobre o nome do álbum para abrir o link e ouvi-lo).

Tenha em mente, porém, que essa lista nem de longe pode ser considerada completa. Trate-a apenas como um ponto de partida.


OUTRUN
Embora o termo “outrun” seja também utilizado em grande parte para se referir ao gênero como um todo, ele é aplicado mais especificamente ao mesmo estilo de synth-wave utilizado na trilha sonora de Drive, evocando a sensação de guiar um carro em alta velocidade. Desde meados da década passada o outrun perdeu espaço para outros estilos, como popwave e dreamwave, e já não é tão popular quanto outrora.



Lazerhawk – Redline (2010)


Miami Nights 1984 – Early Summer (2010)


Mitch Murder – Burning Chrome (2010)


D/A/D – The Construct (2013)


Kavinsky – OutRun (2013)


Lost Years – Amplifier (2013)


Automatic Android – Mojave (2016)


Tokyo Rose – The Chase: Last Run (2017)


Beckett – Outrun the Skyline (2018)


Ace Buchannon – Magenta Nights (2019)


CJ Burnett – Heartracer (EP, 2019)



DREAMWAVE
Surgido na primeira metade da década de 2010, o dreamwave tornou-se praticamente a quintessência do gênero. Caracteriza-se por músicas que evocam uma atmosfera romântica, veranil, sonhadora ou quase meditativa, ritmos suaves e grande ênfase nas melodias. Embora seja um estilo predominantemente instrumental, muitos de seus artistas também utilizam vocais. 


FM Attack – Déjà Vu (2013)


Vincenzo Salvia – Auto Radio (2013)


The Midnight – Days of Thunder (2014)


Bart Graft – Bart Graft (2015)


Duett – Borderline (2015)


Gunship – Gunship (2015)


TimeCop1983 – Reflections (2015)


FM-84 – Atlas (2016)


New Arcades – We Had it All for Just a Moment (EP, 2016)


Morgan Willis – Supernova (2018)

 
Kalax – III (2019)


Waveshaper – Artifact (2019)


Shadowrunner82 – Shadowrunner (2020) 



POPWAVE / POP SYNTHWAVE
O popwave (também conhecido como “pop synthwave”) é o “primo mais pop” do dreamwave, e além do maior destaque nos vocais e melodias, também incorpora diversos elementos da música pop contemporânea.

À primeira vista pode parecer que o popwave nada mais é do que um “synth-pop” moderno, mas é importante ressaltar que, como dissemos acima, ele é um gênero completamente distinto do synth-pop dos anos 80.


Michael Oakley – California (EP, 2017)


September87 – Bad Dream Baby (single, 2017)


Dana Jean Phoenix – Pixel Dust (2018)


Nina – Sleepwalking (2018)


Ollie Wride – Thanks in Advance (2019)


Roxi Drive – Electric Heart (2020)


Michael Kross & Mayah Camara – Shine (single, 2020)


Munatix – You Just Keep Hanging On (single, 2020)


FUTURESYNTH / SPACEWAVE
Futuresynth (ou Space) é uma fusão entre o synth-wave e a space music. É um termo muito abrangente, e justamente por isso é difícil defini-lo musicalmente. As músicas geralmente apresentam melodias e arranjos mais complexos, e influência de trilhas sonoras de filmes e videogames. Muitos dos artistas também utilizam guitarras em conjunto com os sintetizadores. Não raro, as canções são mais longas e possuem um caráter épico e cinematográfico, que busca evocar paisagens sonoras e temas ligados à ficção-científicas, como a exploração espacial, as viagens interestelares e a descoberta de novos mundos alienígenas. 

 

Dynatron – Escape Velocity (2012)


Volkor X – This Means War (2016)


Zombie Hyperdrive – Hyperion (2016)


Morch Kovalski – Outrun 1986 (EP, 2018)


Wolf & Raven – Lair of the Dragon (2018)


Starforce – First Relic (2019)


Jetfire Prime – The End of the Beginning (2019)


Neon Deflector – Star Dreamer e Artifact (singles, 2020)


Deltalphaxray – Timedreamer (2020)


DARKSYNTH
Esse subgênero instrumental tem como maior influência as trilhas de filmes de terror dos anos 70 e 80 criadas por músicos e compositores como John Carpenter, Brad Fiedel, Fabio Frizzi, Claudio Simonetti e a banda italiana Goblin. Porém nem todos os artistas de darksynth se inspiram em filmes de terror – pelo contrário, a ficção-científica distópica e a fantasia urbana também servem de tema para alguns artistas deste estilo.


Perturbator – Night Driving Avenger (EP, 2010)


Glitch Black Death Spiral (2015)


Daniel Deluxe – Corruptor (2016) 


Dance with the Dead – The Shape (2016)
 

Perturbator – The Uncanny Valley (2016)


Fixions – Genocity (2017)


Gregorio Franco – The Dark Beyond (2017)


Midnight Danger – Malignant Force (2018)


Occams Laser – New Blood (2018)


CYBERPUNK SYNTHWAVE (CYBERSYNTH)
Originalmente surgido dentro da cena darksynth, tornou-se um subgênero completamente distinto conforme seus artistas foram incorporando outras influências e desenvolvendo um padrão musical e temático bastante singular. Musicalmente, o “cybersynth” caracteriza-se pelo experimentalismo rítmico, uso de distorções e filtros de efeito, arranjos elaborados e complexos, e riffs de guitarras, sempre buscando uma sonoridade futurista influenciada por uma temática cyberpunk.


Dan Terminus – The Darkest Benthic Division (2014)
 

Mega Drive – 198XAD (2014)


Scandroid – Scandroid (2016)


Astral Tales – Raytracers (2017)


Roborg – Cybercrime (2017)


Isidor – Avalon Quest (2019)


Signal Void – This Liminal Reality (2019)







sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

5 excelentes documentários disponíveis na Netflix





Pessoas, segue uma lista de 5 documentários fantásticos disponíveis na Netflix:

Chuck Norris vs. Communism
Direção de Ilinca Călugăreanu
Este espetacular documentário romeno mostra como filmes de ação americanos da década de 1980, estrelados por Churck Norris, Jean-Claude van Damme e outros astros da época foram contrabandeados em VHS para a Romênia durante o auge da sangrenta ditadura comunista de Nicolae Ceaucescu, e ajudaram a alimentar a esperança e o anseio de liberdade de milhares de pessoas. 

Last Man on the Moon
Direção Mark Craig
Magnífica biografia do astronauta Eugene Cernan, comandante da Apollo 17 e último homem a pisar na lua, falecido em janeiro deste ano. É um documentário belíssimo e comovente, que foca não apenas na sua carreira, mas também na vida pessoal, destacando sua coragem, sua sagacidade, humor afiado e lucidez aos 81 anos de idade.

A um passo do estrelato
Direção de Morgan Neville
A vida, os sonhos e o talento das quase sempre desconhecidas backing vocalists que apóiam grandes nomes da música pop mundial, como Sting e Bruce Springsteen. Ganhador merecidíssimo do Oscar de melhor documentário de 2014.

The Art of Conflict
Direção de Valeri Vaughn
Um olhar sobre o muralismo na Irlanda do Norte e seus artistas - republicanos e unionistas - desde suas origens na época dos Conflitos como forma de protesto e propaganda política e sectária, até sua transformação gradual em uma reconhecida forma de arte urbana nos dias atuais.  

Pacific Warriors
Direção James Marquand
Indicado não apenas para fãs de esporte, este documentário mostra as equipes de rúgby de pequenas nações insulares do Pacífico - Fiji, Tonga e Samoa - e as surpreendentes e cativantes histórias de vida de seus jogadores. Ao ver este filme você entenderá porquê o rúgby é chamado de "esporte de cavalheiros".